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Este blog tem por objetivo mostrar meu trabalho em sala de aula, trocar experiências com professores e alunos e receber sugestões metodológicas, exemplos de projetos pedagógicos, etc.

sexta-feira, 2 de junho de 2017

A Fase Pombalina da Escolarização Colonial

Para os meus alunos do Curso de Pedagogia

      A FASE POMBALINA DA ESCOLARIZAÇÃO COLONIAL
 
A política colonial portuguesa tinha como objetivo a conquista do capital necessário para sua passagem da etapa mercantil para a industrial. Porém Portugal não conseguiu alcançar este objetivo. A nação que se destaca neste período é a Inglaterra, bastante beneficiada pelos lucros coloniais dos portugueses. Assim, com grande desvantagem de capital na relação comercial entre Portugal e Inglaterra, enquanto uma nação entrava em declínio a outra estava em ascensão.
Portugal se tornara um país pobre e despovoado e com uma lavoura decadente e de caráter feudal1. Quase sem terras e sem fontes de renda e com uma burguesia mercantil rica, mas com grande deficiência política. O marquês de Pombal (Sebastião José de Carvalho e Melo) iniciou uma tentativa de transformação no século XVII com as "Reformas Pombalinas".
Em relação ao aspecto econômico, a decadência pode ser claramente constatada após o período de dominação espanhola de Portugal (1580-1640). Nesta época morre o cardeal D. Henrique que deixa o trono sem herdeiros. Iniciava então uma luta entre pretendentes ao trono, em função de Filipe II da Espanha vencer, este período é denominado – período de dominação espanhola em Portugal.
Portugal sairia arruinado da dominação espanhola, a sua marinha destruída, o seu império colonial esfacelado. Diante desta realidade, era necessário tirar o maior proveito possível da colônia, porém para obter sucesso nisso teriam que aumentar o aparato material e humano e ainda mais, deveria ser discriminado o nascido na colônia do nascido na metrópole e obviamente as posições superiores deveriam ser ocupadas somente pelos metropolitanos. Entretanto esta ampliação exigia um pessoal com preparo elementar. As técnicas de leitura e escrita se fazem necessárias, surgindo com isto, a instrução primária dada na escola que antes cabia a família.
1 Feudal vem de Feudalismo: “Regime resultante dum enfraquecimento de poder central, e que une estreitamente autoridade e propriedade da terra, estabelecendo entre vassalos e suseranos (que possui um feudo, do qual outros dependem) uma relação de dependência” (AURÉLIO, 2009).
Quando a mineração parecia ser a solução esperada, ficou apenas na esperança já que o ouro brasileiro era canalizado para a Inglaterra, houve então um processo de industrialização, só que era inglês. Por outro lado, este ciclo econômico da mineração provocou mudanças no Brasil que começam a abalar a manutenção do pacto colonial nos moldes tradicionais. Entre elas devem ser destacadas:
 estabelecimentos de vínculos entre áreas baiana, fluminense, pernambucana e paulista;
 aumento do preço da mão de obra escrava, provocando surto de tráfico;
 aumento das possibilidades de alforria e de impulso a rebeldia;
 aparecimento de uma camada média e de um mercado;
 deslocamento da população colonial e da capital para o sul (Rio de Janeiro, 1763);
 descontentamento das camadas dominantes e média coloniais pelas discriminações.
Portugal, em meados do século XVIII, formava elementos da corte através do ensino jesuítico na Universidade de Coimbra – Medieval. Havia então a necessidade de uma recuperação intelectual, a criação da Academia Real de Ciências (1779). As ideias defendidas eram do movimento iluminista2. Pombal tentou, enquanto ministro de estado, tornar este programa concreto. Percebeu-se então uma mudança mais de conteúdo do que de método, culminando com a expulsão da Companhia de Jesus em 1759.
A orientação adotada era de formar o perfeito nobre, facilitar os estudos para que todos se interessassem por cursos superiores, propiciar o aprimoramento da língua portuguesa, diversificar o conteúdo, incluir a natureza científica e torná-los mais práticos.
Foi instituído o ensino público, o alvará de 28/06/1759 criava o cargo de diretor geral dos estudos que licenciava o ensino público e o particular e supervisionava as escolas e professores através de um comissário o qual deu aos professores o direito dos nobres. Foi aberto no Brasil um inquérito para fiscalizar os
2 Iluminista vem de iluminismo: Linha filosófica caracterizada pelo empenho em estender a razão como critica e guia a todos os campos da experiência humana.
professores que lecionavam sem licença e usavam livros proibidos. Foram realizados concursos para promover cátedras3 de latim e retórica na Bahia e no Rio de Janeiro, e enviados professores régios (das aulas régias) para Pernambuco.
Daí por diante são criadas classes elementares com aulas avulsas de latim, filosofia, grego, e retórica. Pedagogicamente esta nova organização é um retrocesso. Representou um avanço ao exigir novos métodos e novos livros. No latim a orientação era apenas como instrumento e admitir o auxílio da língua portuguesa. O grego era indispensável aos teólogos, advogados, artistas e médicos. A retórica não deveria ter seu uso restrito à cátedra. A filosofia ficou para bem mais tarde, mas nada de novo aconteceu. As dificuldades existiam também na metrópole quanto a falta de dinheiro e pessoal preparado.
As transformações no nível secundário não afetaram o fundamental, que permaneceu desvinculado da realidade, e buscando o modelo de exterior "civilizado". Quem tinha condições de cursar o ensino superior enfrentava os perigos das viagens, para frequentar a Universidade de Coimbra ou outros centros europeus.
As "Reformas Pombalinas" visavam transformar Portugal numa metrópole como a Inglaterra. Para isso, a elite masculina deveria buscar respaldo fora, para poder servir melhor na sua função de articuladora dos interesses da camada dominante.
José Joaquim de Azeredo Coutinho, participante desta elite, foi o fundador do Seminário de Olinda, que foi por muito tempo, o melhor colégio de instrução secundária do Brasil. Neste colégio, fazia-se uso de métodos mais suaves, dava-se maior atenção às matemáticas e às ciências físicas e naturais. Com estes mesmos princípios surge mais tarde a instituição do Recolhimento de Nossa Senhora, para moças.
A realidade que se instalou provocou o desejo de alguns, de buscar a emancipação política. Porém, esta vontade surgiu em decorrência das mudanças na
3 Cadeira professoral; cargo ou função de professor de disciplina de nível universitário ocupado por professor titular.
estrutura social brasileira, e não devido às ideias iluministas da época. No governo seguinte, de D. Maria I, surgiu o movimento "Viradeira", que combatia toda doutrina do pombalismo, encerrando-se esta importante fase pedagógica de nossa história colonial.
FONTE: Acesso em: 02/06/2017

Ratio studiorum

Para os meus alunos do Curso de Pedagogia 

Ana Maria Melo Negrão
Professora Adjunta da FADI/Puccamp e doutoranda da FE/Unicamp.
FRANCA S.J., Leonel. O método pedagógico dos jesuítas: o "Ratio Studiorum": Introdução e Tradução.Rio de Janeiro: Livraria Agir Editora, 1952.
 
Leonel Franca (1893-1948), sacerdote da Companhia de Jesus, doutor em Teologia, escritor laureado com o prêmio Machado de Assis da ABL, dentre as suas obras, legou-nos O método pedagógico dos jesuítas, publicado postumamente, mediante a chancela IMPRIMI POTEST. A primeira parte do livro contempla 95 páginas e denomina-se Introdução.
O autor a inicia, discorrendo sobre as razões que originaram a fundação de colégios, a partir de 1548, e sua rápida proliferação em várias regiões da Europa, pois Inácio de Loyola, ao fundar a Companhia de Jesus, intentava peregrinar pelo mundo, para realizar a tarefa da evangelização, segundo as missões ordenadas pelo Papa. Os jesuítas, caracterizados como soldados de Cristo deveriam cultivar os exercícios espirituais, com muita meditação e silêncio.
No entanto, o primeiro colégio tem suas raízes plantadas em residências, inicialmente denominadas colégios, destinadas ao acolhimento de jovens estudantes inteligentes, potenciais candidatos jesuítas, os quais frequentavam universidades públicas, e posteriormente as aulas passaram a ser ministradas na própria residência, originando-se, dessa forma, o Colégio Messina, fundado em 1548.
Em face do ingresso cada vez mais significativo de alunos externos e da falta de experiência dos professores, fez-se sentir a necessidade de uma normatização do trabalho em colégios, o que exigiu a codificação do Plano de Estudos da Companhia de Jesus - o Ratio atque Institutio Studiorum Societatis Jesu -, redigido por comissões de destacados jesuítas, sob a direção do Geral da Ordem,
P. Acquaviva, submetido a várias análises e alterações, até adquirir forma definitiva e obrigatoriedade em 1599, após 15 anos de minuciosos estudos. O cerne do ordenamento era garantir a uniformidade de procedimentos, de mente e coração dos educadores jesuítas e dos alunos, para a consecução dos objetivos propostos, opondo-se à turbulência desencadeada pelo movimento reformista do século XVI.
O autor, em sequencia, explicita que, o Ratio Studiorum, como se denomina abreviadamente, permaneceu por quase dois séculos, até a supressão da ordem, em 1773, quando o Papa Clemente XIV proibiu a Companhia de Jesus de atuar em seus colégios. Posteriormente, o Papa Pio VII, em 1814, restaurou a ordem, tendo o superior-geral nomeado uma comissão para elaborar uma revisão no Ratio Studiorum, cujas análises foram concluídas em 1832, apresentando-se uma nova versão, com 29 conjuntos de normas, exatamente um a menos que a versão de 1599.
À medida que vai detalhando o longo processo do Ratio, Leonel Franca paralelamente faz a apologia da fidelidade aos princípios pedagógicos gerais do Plano de Estudos que devem continuar norteando os colégios dirigidos por jesuítas. Nesse aspecto, é essencial vislumbrar o momento em que a obra foi produzida por Franca: a década de 1940. Percebe-se que o autor procura evidenciar o seu apreço pelo sistema de ensino jesuítico, flexibilizando-o às circunstâncias de tempo e espaço, assegurando-lhe uma majestosa soberania na história da pedagogia.
Como fontes do Ratio, emerge no texto a incontestável influência em Inácio de Loyola, fundador da Companhia de Jesus, dos estudos vivenciados na Universidade de Paris, emoldurados pelo humanismo do Renascimento e pela restauração tomista, podendo-se inferir ter lá buscado as bases para seu método de ensino.
Para construir a sinopse do Ratio, o autor alerta sobre a finalidade eminentemente prática bem como as origens históricas geradoras desse manual que preceitua métodos de ensino, regras e diretrizes objetivas aos envolvidos no processo educativo jesuítico.
Prossegue Franca o estudo, elencando as dimensões sob os títulos: administração; currículo e metodologia; e os elementos mais importantes de seu conteúdo.
Apresenta a administração dividida em Províncias ou Circunscrições territoriais supervisionadas por um Provincial, abrangendo casas e colégios da Ordem. Integram a hierarquia os Reitores de Colégios, os Prefeitos de estudos auxiliados pelos Prefeitos de disciplina, com atribuições especificamente delineadas. Cumpre ressaltar que a hierarquia organizacional reflete a estrutura piramidal da Igreja.
Especifica o autor serem os estudos organizados em três modalidades de currículos: o Teológico, em quatro anos, abrangendo a Teologia escolástica e moral, a Sagrada Escritura, Direito Canônico e História Eclesiástica; o Filosófico, em três anos, baseando-se nas doutrinas de Aristóteles e Santo Tomás; e o Humanista, com duração de seis ou sete anos, abrangendo cinco classes, com cinco horas diárias de aula: Retórica, Humanidades, Gramática Superior, Média e Inferior.
O Ratio Studiorum preceitua a formação intelectual clássica estreitamente vinculada à formação moral embasada nas virtudes evangélicas, nos bons costumes e hábitos saudáveis, explicitando detalhadamente as modalidades curriculares; o processo de admissão, acompanhamento do progresso e a promoção dos alunos; métodos de ensino e de aprendizagem; condutas e posturas respeitosas dos professores e alunos; os textos indicados a estudo; a variedade dos exercícios e atividades escolares; a frequência e seriedade dos exercícios religiosos; a hierarquia organizacional; as subordinações...
Exigia-se a elaboração de composições escritas com aprimorado rigor; liam-se autores greco-romanos, em especial Aristóteles, Cícero, e a retórica propunha formar o perfeito orador. Percebe-se que o sistema de ensino deveria eleger autores e pensadores vinculados ao pensamento oficial da Igreja, razão pela qual emerge vigorosamente a figura de Tomás de Aquino.
A formação religiosa configurava-se como o maior pilar do sistema educativo jesuítico. Cuidava-se para que a fidelidade doutrinária fosse mantida,
irrestritamente, evitando-se quaisquer textos, autores, questões polêmicas ou debates em discordância com a doutrina da Igreja, para que nada expusesse a fé e a piedade dos alunos.
O apuradíssimo estudo do latim privilegiava leituras de autores clássicos, manejo das normas gramaticais e auxiliava no domínio das línguas pátrias, que, gradativamente, iam se inserindo no currículo. Integralizavam os trabalhos em aula exercícios complementares, teatro, discursos, declamações, academias, pregações no refeitório, premiações..., trilhando o ensino a dimensão humanístico-tradicional, em que a inteligência considerada produto da criação divina deveria desenvolver-se pelos ditames da Fé.
Para reforçar e provar a excelência desse Saber que formava as elites culturais e lideranças hegemônicas, o autor cita escritores, pensadores, enfim, expoentes notáveis dos mais variados ramos da ciência que absorveram os conhecimentos na metodologia jesuítica: Cervantes, Vieira, Bernardes, Montesquieu, Voltaire, Moliére, Descartes, Galileu, Bossuet, Fontenelle, Berthollet, Gregório de Matos, Cláudio M. da Costa, Alvarenga Peixoto, Caldas Barbosa etc., etc.
O autor reitera a admiração pela Ratio transcrevendo palavras de Paulsen, autor protestante, de respeitável autoridade: "Que o Ratio Studiorum tenha sido elaborado com grande sabedoria e diligência invulgar é o que não se pode pôr em dúvida. Nem tampouco é possível contestar que, no seu conjunto, o seu plano de estudos se adapta bem às exigências do tempo; tudo o que tinha um valor no mundo científico do século XVI foi nele levado em consideração. Não duvido tampouco, que pela organização escolar, a Ordem tenha promovido eficazmente a difusão da cultura intelectual, e, em particular, o conhecimento das línguas clássicas nos países católicos, onde os jesuítas eram os mestres mais instruídos e mais zelosos" (Franca, 1952, p. 55-56).
Parece que o autor, ao transcrever esse juízo, objetivou demonstrar que, embora o Plano de Estudo da Companhia de Jesus visasse insurgir-se contra a Reforma pregada pelo protestantismo, teve a eficácia acatada por um protestante de reconhecida autoridade, que se curvou ao sistema organizado daquele ensino de vertente católica.
Leonel Franca expõe, com muita ênfase, aspectos relevantes da pedagogia jesuítica: a preleção, em que se aborda um texto etimológica, gramatical, literária e historicamente; estudos privativos e grupais com exercícios escritos, pesquisas, heterocorreções; a emulação, arma de incentivo nos certames, debates, desafios, disputas, exposição de trabalhos, premiações, estimulando a entrada em Academias;1 a memorização, repetindo-se os pontos mais fortes das lições, praticando-se declamações e representações teatrais; a rígida formação moral e religiosa, com exortações em público ou em particular, vigilância contínua, concentração e perseverança nos estudos, domínio e controle das emoções, firmeza de caráter, sobriedade, obediência irrestrita aos superiores, práticas sacramentais frequentes, aulas específicas de aprofundamento da doutrina católica.
Embora não se preceituassem castigos corporais, os jesuítas não os suprimiram de todo. Permitiam-se, desde que houvesse justificativa, chicote ou palmatória, os golpes não ultrapassando a seis, evitando-se atingir o rosto ou a cabeça. "No dia solene da investidura, como símbolo da sua missão disciplinadora, recebia oficialmente o professor um chicote. E não o recebia em vão. Pierre Tempête, Principal do Colégio de Montaigu, mereceu a triste alcunha de Grand fouetteur des enfants" (Franca,1952, p. 60).
Ainda na Introdução, o autor dedica 19 páginas ao valor permanente do Ratio, declarando que "educar não é formar um homem abstrato intemporal, é preparar um homem concreto para viver no cenário deste mundo" (Franca, 1952, p. 76).
Para tanto, reitera ser a pedagogia jesuítica ativa, com aulas plenas de vida, e iluminada por um grande ideal de formação integral humanista, com professores muito bem preparados, em todas as dimensões da perfeição humana, verdadeiros apóstolos, modelos de virtudes.
A escolha dos professores era submetida a rígidos critérios de seleção para que fossem eficientes no progresso intelectual, moral e espiritual dos alunos. Não poderia ser outro o perfil do mestre inserido na Companhia de Jesus, pois o termo Companhia sugeria um pelotão de soldados da Igreja de Cristo, responsáveis pela luta contra a Reforma protestante, a qual comprometia a hegemonia do
catolicismo. Por não acatarem os protestantes a revelação subordinada à autoridade divina e infalível do Papa e da Igreja, e por pregarem o livre exame na interpretação da bíblia, sem interferência das autoridades eclesiásticas, somente professores com formação esmeradíssima poderiam enfrentar o combate, com armas espirituais.
Para bem entender como deveriam ser os agentes do ensino jesuítico, cumpre lembrar que Inácio de Loyola, por ter sido oficial antes de ser sacerdote, imprimiu caráter militar à Ordem, e para revigorar a ascese desses soldados de Cristo a serviço do Papa e da Igreja, faziam-se obrigatórios os Exercícios Espirituais e Estudos Teológicos em profundidade.
O autor encerra a parte introdutória apresentando farta bibliografia, como fronteira à segunda parte, intitulada: Organização e Plano de Estudos da Companhia de Jesus, que compreende 110 páginas de regras, traduzidas da própria Ratio, detalhando o agir de cada integrante do processo educativo, sequencialmente: Regras do Provincial, do Reitor, do Prefeito dos Estudos, Comuns a todos os Professores das Faculdades Superiores, do Professor de Sagrada Escritura, do Professor de Língua Hebraica, do Professor de Teologia (Escolástica), do Professor de Casos de Consciência (de Teologia Moral), do Professor de Filosofia, do Professor de Filosofia Moral, do Professor de Matemática, do Prefeito de Estudos Inferiores (ginasiais), Normas da Prova Escrita, Normas para a distribuição de prêmios, Regras comuns aos Professores das classes inferiores, do Professor de Retórica, do Professor de Humanidades, do Professor da Classe Superior de Gramática, do Professor da Classe Média de Gramática, do Professor da Classe Inferior de Gramática, dos Escolásticos da Nossa Companhia, Diretivas para os que repetem privadamente a Teologia em dois anos, Regras do Ajudante do Professor ou Bedel, dos Alunos Externos da Companhia, da Academia, Regras do Prefeito da Academia, da Academia dos Teólogos e Filósofos, da Academia dos Retóricos e Humanistas, da Academia dos Gramáticos.
A título ilustrativo, segue-se a regra n. 20 (Franca, 1952, p. 148), a qual denotava o zelo com que o professor das faculdades superiores deveria tratar o aluno: "Zeloso do adiantamento dos alunos tanto nas lições como nos outros exercícios escolares; não se mostre mais familiar com um aluno do que com outros;
não despreze ninguém; vele igualmente pelos estudos dos pobres e dos ricos; procure em particular o progresso de cada um de seus estudantes."
Essa segunda parte do texto é densa de normatizações, autêntico código cogente e coercitivo, redigido com estilo claro, propiciando entendimento integral e leitura fluida. Segue-se como fecho do livro um índice onomástico.
À guisa de conclusão, indubitavelmente, as diretrizes emanadas do Ratio Studiorum exerceram e até hoje exercem grande influência na pedagogia de educadores religiosos católicos de outras congregações, as quais absorveram as regras e princípios do jesuitismo, pondo-os em prática em suas instituições, com maior ou menor intensidade.
A leitura desta obra permite refletir na importância do Ratio Studiorum para a Igreja Católica intimidada diante da Reforma Protestante à qual aderiram muitas nações que já estavam se adaptando à nova ordem social capitalista. Entendem-se as razões pelas quais Portugal elegeu a Companhia de Jesus para o monopólio da educação e de ensino tradicional na Metrópole e nas colônias, reinando de certa forma absoluta, até mesmo após a sua expulsão, pela Reforma Pombalina.
A todos os que se propõem estudar a História da Educação esta obra de Franca é imprescindível, tanto para uma leitura crítica da parte introdutória, para se inferir como os padrões educativos do Ratio privilegiavam a classe dominante, e para conhecer na íntegra o ordenamento do Plano de Estudos Jesuíticos, seus princípios basilares, sua historicidade a subsidiar pesquisas, iluminar investigações, estabelecer análises comparativas com outras tendências pedagógicas.
Por muitas vezes, durante a leitura do Ratio, senti-me provocada pelo autor, em face da dimensão persuasiva subjacente. Não se pode negar a capacidade discursiva de Leonel Franca ao considerar o Ratio Studiorum um Plano de Estudos de vigorosa magnitude, alinhavada à sua formação jesuítica.
Ao longo do texto introdutório, em especial, o autor demonstrou o papel preponderante da Companhia de Jesus como instituição de vanguarda no processo
de ensino tradicional, assegurando a hegemonia da influência religiosa na educação instrucional.
Quanto ao ordenamento normativo em si mesmo, na segunda parte do livro, incontestavelmente, representa uma alavanca que impulsiona discussões sobre a história da Educação, mediante seus decretos educativos, abrindo pistas até mesmo para mais claramente vislumbrarem-se as estratégias da Igreja Católica no fortalecimento do poder do Papa, dos dogmas, do clero, dos concílios, enfim, da própria Igreja, tudo isso ligado à Inquisição.
Embora o autor seja jesuíta, sua obra O Método Pedagógico dos Jesuítas configura-se como o primeiro sistema organizado de ensino católico, uma contribuição de inestimável importância, de mérito indiscutível no que tange ao estudo dos princípios educacionais da Companhia de Jesus, responsáveis pelo ensino não só no Brasil mas em várias regiões do mundo, cujas linhas pedagógicas ficaram incorporadas como parâmetro nas mentes dos educadores, não sendo de todo superadas, independente do pensamento laico sobre educação e das muitas reformas que se lhe sucederam.
Cumpre assinalar, transpondo os limites da obra de Leonel Franca, que os jesuítas, através dos tempos, até a contemporaneidade, têm buscado manter o prestígio educacional, mediante atualizações de seu sistema pedagógico de ensino, em especial, mediante a 31ª Congregação Geral, fundamentada no Concílio Ecumênico Vaticano II, que inaugurara uma nova fase na história da Igreja.
"Nesse contexto, a assembleia dos jesuítas reafirmava a importância de se prosseguir o apostolado educativo em instituições escolares, um dos principais trabalhos da Ordem, não obstante certas vozes internas discordantes, admitindo que ele pudesse ser exercido de outras maneiras. Seguindo a finalidade primordial da pedagogia jesuítica, ' virtude e letras' ou ' fé e ciência', o trabalho educativo visa fazer dos cristãos homens cultos e comprometidos com o apostolado moderno e propiciar aos não-cristãos, por meio de uma formação humana integral, a orientação para o bem comum e o conhecimento e o amor de Deus ou, pelo menos, dos valores morais e religiosos" (CGXXXI, d. 28, n. 7).2

Notas

1 "Sob o nome de Academia entendemos uma união de estudantes (distinctos pelo talento e pela piedade), escolhidos entre todos os alunos, que, sob a presidência de um membro da Companhia, se congregam para entregar-se a certos exercícios relacionados com os assuntos" (Regras da Academia, n. 1. Franca, 1952, p. 221). 2 Klein, Luís Fernando, SJ. Atualidade da pedagogia Jesuítica. São Paulo: Edições Loyola, 1997, p. 47.
Revista Brasileira de Educação Print version ISSN 1413-2478 Rev. Bras. Educ. no.14 Rio de Janeiro May/Aug. 2000

sábado, 14 de janeiro de 2017

APONTAMENTOS PARA ESTUDO - TÉCNICAS DE REDAÇÃO



Técnicas de Redação
Profa. Dra. Maria José Brandão Ramos

 

OBJETIVO DA DISCIPLINA:
 Compreender as técnicas de redação na produção do texto argumentativo.
CONTEÚDOS:
 1.    Técnicas de redação e preparação de texto;
2.    Narração, descrição e dissertação: suas diferenças e suas particularidades;
3.    Como começar uma redação;
4.    Dissertação: conceito, estrutura e dicas.
SEQUÊNCIA METODOLÓGICA:
1.    Socialização dos conteúdos;
2.    Oficina de redação.
RECURSOS:
1.    Pequenos textos sobre temas polêmicos;
2.    Papel para borrão;
3.    Papel pautado;
4.    Celular.
AVALIAÇÃO:
1.    Pesquisa bibliográfica;
2.    Oficina de produção de texto dissertativo.
CRITÉRIOS DE AVALIAÇÃO:
1.    Coerência e aprofundamento do conteúdo;
2.    Apresentação oral;
3.    Iniciativa e participação;
4.    Frequência e pontualidade.

Apontamentos Para Estudo

NARRAÇÃO, DESCRIÇÃO E DISSERTAÇÃO: suas diferenças e particularidades

Para que haja produção intelectual no país os universitários precisam produzir. E para que os universitários produzam é necessário que haja leitura e muita leitura. É através da leitura que se adquire a capacidade de escrever. Escrever o quê? Como escrever?
Pode-se escrever uma narração, uma descrição ou uma dissertação. O que é uma narração? Quando se narra ou conta uma história ou um fato está se fazendo uma narração. Quando se descreve uma cena ou um personagem está se fazendo uma descrição. Ao se expor uma ideia de forma detalhado, metódica e argumentativa, está se fazendo uma dissertação. Para que se escreva bem é necessário observar algumas técnicas.

TÉCNICAS NARRATIVAS

Para que uma narração tenha sucesso é preciso que haja conflito. Escrever sem conflito é escrever para si mesmo. A narrativa possui alguns elementos, tais como:
1.    Conflito;
2.    Personagens;
3.    Tempo em eu ocorre a história;
4.    Lugar onde ocorre a história;
5.    Narrador.
O narrador deve escolher a pessoa do verbo para escrever (1ª ou 3ª). Quando o narrador escolhe a 1ª pessoa, ele, obrigatoriamente, vira o personagem da história. Quando ele escolhe a 3ª pessoa, ele é o contador da história e não participa dela. A 3ª pessoa lhe dá liberdade de criar personagens complexas e administrar todas elas.
Dentro da narração pode-se usar a descrição. E deve ter também na narrativa o diálogo que lhe dá vida. Como começar uma narração? Precisa-se de um conflito. Vejamos.
1ª dica:
Pegue uma folha de papel em branco e coloque no centro dela o tema central. Rodeie o tema de setas. Em cada seta escreva palavras ou frases associadas ao tema. Isso você fará sem pensar (tempestade de ideias). Quando você tiver essa folha cheia de palavras irá olhar para ela e perceber que várias daquelas palavras irão dar ideias e situações que você pode desenvolver durante a narrativa. Então irá perceber que um simples exercício de associação de palavras pode criar um leque enorme de possibilidades na sua história.
Esse é o primeiro passo para você escrever uma história. Toda vez que você sentar para escrever a história deve estar com essa folha de papel. Ela irá servir de um pequeno mapa.
Professora, preciso usar todas as palavras? Não. não precisa usar todas as palavras. No decorrer do processo, até aquela que você descartar pode fazer você se lembrar de outra para ser usada mais adiante.
Escreva sem parar (dentro, é claro, do seu roteiro, do seu mapa) sem a preocupação da crítica. Depois, num outro momento, leia o que você escreveu (escritor crítico). Então você reescreve o texto. Nessa segunda visita ao texto vai achar coisas péssimas e coisas boas. E é nesse momento que vem o escritor crítico(isso não presta, isso não é legal.Olha só essa frase que eu escrevi! Isso é uma boa frase! Vou começar o meu texto com ela!) Então, terá uma visão melhor sobre o texto. Todos os dias reserve um momento para escrever e continue no dia seguinte de onde parou. Faça isso durante uma semana e verá que o resultado será surpreendente. 
2ª dica:
Escreva sobre aquilo que você conhece. Alguém que ler o que você escreveu irá achá-lo verdadeiro. Em geral, quando o escritor tem sucesso é porque  escreve sobre algo que ele conhece bem; que está perto dele. Isto é muito importante.
3ª dica:
Imite o texto do seu autor favorito. Isso é um exercício excelente. Por quê? Todo autor tem uma técnica de escrever. Isso é bom para que se descubra qual o seu estilo de escrever.
4ª dica (dica de estilo):
 Não entregue o ouro no começo da narrativa. O conflito deve ser apresentado um pouco mais na frente. Deve-se levar o leitor ao conflito de maneira suave. Não esqueça que quem vai ler o texto precisa querer lê-lo até o fim. Vem daí a importância do memento da apresentação do conflito.
5ª dica: 
Faça letra legível.
6ª dica:
Evite repetição de palavras – mostra a falta de vocabulário.
7ª dica:
Evite os coloquialismos
8ª dica:
Evite afirmações levianas que não se pode provar
9ª dica:
Não usar “eu acho”; “eu acredito” – mostra incerteza.
10ª dica:
A dissertação tem que ser impessoal
11ª dica:
Cuidado com aquilo que parece óbvio demais – chavões da dissertação.
É importante que se escreva todos os dias. O que vale é a experiência. É preciso dedicação.
DISSERTAÇÃO
O que é dissertação? É um texto que se caracteriza pela defesa de uma tese ou questionamento de um determinado assunto.
Qual a estrutura da dissertação? Divide-se em três partes: introdução, desenvolvimento e conclusão.
O objetivo de um texto dissertativo é convencer o leitor por meio de argumentos.
O que se faz na introdução de uma dissertação? Introduzir a tese a ser defendida. Deve ser começada do tópico frasal, isto é, da primeira frase do parágrafo. Esse tópico frasal deve ser claro. A introdução deve conter um parágrafo ou, no máximo, dois.
Na introdução deve-se apresentar o tema mostrando sua compreensão e expondo o seu ponto de vista.
Vem então o desenvolvimento da dissertação. O desenvolvimento é a apresentação dos argumentos que irão provar para o leitor que a tese é verdadeira. Não adianta uma brilhante ideia de tese se os argumentos são fracos. Tem que provar que o que está sendo argumentado é verdadeiro. É preciso convencer o leitor. Desdobram-se os parágrafos no desenvolvimento da argumentação.
No desenvolvimento deve-se trabalhar os argumentos, apresentando um em cada parágrafo. Ele deve conter de dois a quatro parágrafos.
A última parte é a conclusão. Toda dissertação tem uma conclusão. Nela deve-se fazer uma síntese do ponto de vista e do texto, com alguns elementos diferenciais. Não se deve acrescentar ideias novas. Não resolver o problema, mas propor solução.  
É importante que o escritor atente-se para não cometer falhas como:
1.    Fugir do tema;
2.    Encerrar o texto sem apresentar uma solução (na conclusão);
3.    Nunca começar a escrever diretamente depois de ter o tema da redação; primeiro comece a pensar: “o que que ele quer?”; “por quê?”
Então comece a colocar no papel as ideias. Depois das ideias registradas comece a selecioná-las. Quais as ideias principais? Muitas vezes encontram-se temas explícitos. Outras vezes o tema traz vários textos de apoio que servirão para melhor pensar a respeito do mesmo tema. Não se deve copiar frases desses textos para colocar na redação a ser escrita.
Há uma terceira forma de pedir uma redação: não se dá o tema, simplesmente dão-se os textos e, a partir deles, percebe-se qual é o tema. Esta forma é mais difícil porque exige a capacidade de interpretar e de relacionar os textos apresentados.
Dessa forma, busca-se um aluno com um pensamento mais sofisticado. Neste caso precisa-se de muito mais leitura porque a interpretação requer um conhecimento maior, mais global, uma visão mais holística.
Então os temas são:
1.    Temas explícitos;
2.    Temas com textos de apoio;
3.    Textos relacionados sem o tema (para se descobrir).
Normalmente uma redação tem quatro parágrafos:
1º - aborda o assunto;
2º e 3º - desenvolvem o assunto;
4º - dá a solução para o problema.
Para se fazer uma boa redação precisa-se do poder de argumentação.
As redações tipo ENEM exigem 5 competências:
1.    Demonstrar domínio da norma culta;
2.    Compreender a proposta da redação;
3.    Coerência;
4.    Coesão;
5.    Propor solução (no último parágrafo – conclusão).

O que se analisa na coesão? A coesão envolve diversos aspectos. Um deles e muito importante é a estruturação do texto:
1.    Introdução – um quarto das linhas;
2.    Desenvolvimento – dois quartos das linhas;
3.    Conclusão – um quarto das linhas;
4.    30 linhas = 4 ou 5 parágrafos;
5.    Nunca fazer parágrafos com apenas uma frase;
6.    O período deve ser no máximo de 3 linhas.
E na coerência?  É um aspecto também muito importante:
1.    A introdução apresenta de forma explícita o tema e a tese (ponto de vista)?
2.    Há, pelo menos, dois argumentos consistentes?
3.    Há conectores entre os parágrafos?
4.    A conclusão retoma as ideias básicas do texto sem contradição?
O texto dissertativo deve apresentar também: concisão, objetividade e clareza.
Para se começar bem uma redação deve-se observar os seguintes passos:
1.    Ler os textos base e destacar os pontos principais sobre o tema;
2.    Escrever tudo que vier em sua mente relacionado ao tema;
3.    Organizar suas ideias em palavras e frases curtas;
4.    Começar seu plano de redação e ver quais ideias podem ser usadas;
5.    Com as ideias desenvolvidas, começar o rascunho da redação, defendendo a tese – através do tema você é contra, é a favor ou se, dependendo da situação, tem um lado favorável ou contrário.




 


REFERÊNCIAS RECOMENDADAS

ABREU, Antônio Suárez. A arte de argumentar. São Paulo: Atelier Editorial, 2008.

KOCH, Ingedore. Desvendando os segredos do texto. São Paulo: Cortez, 2002.

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